Uma pérola bruta de Death Metal que exala nada além de ódio!
Vehexion – The Chaos Supremacy
17 abril, 2024
Ian LIMUWZ
Como pontapé inicial para as iminentes resenhas – sejam elas de Full’s, EP’s, Demos, Shows etc. – do nosso Underground Nacional deste humilde Webzine, aqui estamos com uma grata surpresa de Aracaju, Sergipe . Advindos da também banda de Death Metal, a veterana Sign of Hate, os membros restantes, Blackdemon (Vocais/Guitarras) e Doom Borges (Baixo) surgem com o Vehexion e seu petardo de Full-lenght logo de cara, intitulado The Chaos Supremacy. Lançado em CD num total de 513 cópias pelo selo nacional Sociedade dos Mortos, em 2020, o disco de estreia contém 8 faixas, sendo uma introdução e 7 músicas, totalizando 27:43 minutos.
Para completar o lineup nas gravações, seus companheiros da ótima Lammashta, os alagoanos Infamael e Edyskul, foram convocados para gravar Bateria e Guitarra solo, respectivamente, além de terem se encarregado da produção do álbum. A arte de capa e a Logo foram delineadas pelas mãos do requisitado artista brasileiro Marcio Blasphemator, de São Paulo.
O Vehexion faz aqui um Death Metal de primeira qualidade, com bons timbres de guitarra rítmica e (principalmente) solo, uma execução de bateria estupenda, além de graves vocais ferozes, mas ao mesmo tempo bem pronunciantes, totalmente condizentes com o estilo. Suas composições contam com ótimos riffs despretensiosos e sem firulas, daqueles que logo grudam na cabeça do ouvinte, alternando entre uma velocidade apocalíptica e grooves muito precisos, assim obtendo uma mescla perfeita e tornando o álbum bem dinâmico, sem soar de jeito nenhum enjoativo ou repetitivo. Como contraponto, a gravação acabou soando um pouco abafada, mas nada que desestimule a audição ou que diminua os méritos obtidos nessa obra.
Antes de finalmente partirmos para o álbum em si, devo salientar-vos que, nas muitas resenhas que estão por vir, não pretendo destrinchar sempre todo o disco faixa por faixa, embora nesse assim tenha sido feito, visto que o processo de análise se desenvolveu de modo muito natural e espontâneo. Além do mais, para um Full-lenght, trata-se de um álbum curto, não em termos de faixas, mas sim de duração, o que certamente influenciou no processo. Também não pretendo abordar aspectos muito teóricos como afinações específicas, tons, escalas tocadas etc., pois, considero a música como um todo mais importante.
Partindo para o álbum, The Chaos Supremacy abre com uma pequena faixa instrumental, que transmite uma leve sensação de suspense, que imediatamente dá um prenúncio do caos que está por vir. Após a introdução, Dead Beliefs surge como um verdadeiro ataque relâmpago, com riffs diretos e carregados de blast beats com bumbos altamente rápidos, vocais dobrados em trechos contundentes de uma letra de cunho individualista e cheia de ódio contra a religião católica, fazendo prevalecer um instinto de sobrevivência

Seguida de Sacrament’s Filth, esta soa tão direto quanto a anterior, num ritmo parecido, porém com mais bumbo duplo e menos blast beats, e com letras novamente atacando de maneira cortante a igreja e o cristianismo, bem como no disco inteiro. A 4ª faixa, Warfather, começa com uma ambiência digna de cena de suspense/terror, e em seguida retomando os blast beats sob um riff matador, curtamente fraseado e épico – mas sem perder a essência da maldade – nas primeiras estrofes e com um refrão pegajoso em mais sessões de bumbo duplo na primeira metade da música, e alternando tal ordem instrumental na continuação da letra, divididos por um cirúrgico solo curto, bem acentuado de forma certeira na mixagem.
Com uma duração um pouco maior que as anteriores, ultrapassando os 4 minutos, Denying the False Redemption se mostra uma das melhores, começando com um riff groovado bastante memorável, e num ótimo contraste com a bateria fazendo bumbo duplo, bem estilo Morbid Angel . A música possui uma estrutura com mais variações rítmicas, contando com ótimos arranjos de bateria e alguns solos irreverentes no seu fechamento. Uma música proporcionalmente rica para o devido estilo da banda.
Noite do Caos faz jus ao título, aonde a banda volta com tudo em termos de ferocidade sonora, também muito rica na bateria e com riffs alternando entre tremolo picking e palm mute palhetado pra baixo, típicos de Old School Death Metal, e com mais um belíssimo solo no final. Faixa furiosa!
Outra pérola de Death Metal, Inner Darkness, pode facilmente ser considerada a faixa mais peculiar e distinta do álbum, onde eles novamente desaceleram o ritmo para orquestrar sua letra mais longa e reflexiva, dando um leve tom de introspecção, principalmente nas primeiras estrofes. Um tanto destoante das demais. Muito além disso, temos aqui riffs mais incomuns, ou fora da curva, um após o outro, onde o primeiro tem uma pausa entre a repetição da frase tema da primeira estrofe, cuja sucessora cobre um riff bem cadenciado, e por conseguinte um contratempo muito bem elaborado, reforçando a introspecção da letra.
E, para fechar esse trabalho com maestria, a 8ª faixa, Prisoners of Himself, começa com um sample, tirado de uma cena do filme “O Bebê de Rosemary” (1968), para anunciar outra música epicamente malévola, com mais alternância entre seus vários riffs, tornando a música muito dinâmica e com variações que não deixam a peteca cair, sendo uma faixa perfeita para o concluir do disco, que conta com mais um sample do já citado filme nos segundos finais, trazendo uma sensação de encerramento.
Destrinchadas as músicas do disco, agora consideremos os demais aspectos desse trabalho. Logo de cara, pude notar algo que até então me era inédito no encarte – cujo layout feito por Alcides Burn – que, nas letras, os solos são nomeados com “atribuições”, “ações” ou “atos”, como (em tradução livre) “Aniquilador de Dogmas”, “Incinerar Pessoas Mortas” e “A Negação”. Uma curiosidade inusitada para este que vos fala.

A arte de capa traz um aspecto de pintura do estilo Figurativismo – cujo remonta a arte rupestre – trazendo um espectro altamente deteriorado do I.N.R.I. crucificado e com mais alguns elementos alusivos à morte, numa escala de cores frias e pouco ortodoxas, pois ela tem o seu elemento apelativo no que cerne à temática, mas ao mesmo sem parecer com tantas outras já velhas conhecidas. Ótima escolha, realmente bem elaborada e de muito bom gosto!
Ainda sobre as artes, outro ponto interessante está nas cores usadas no interior do encarte e na capa de fundo. Um tom amarelo meio pálido com ilustrações no mesmo estilo da capa colocadas sutilmente ao fundo das letras, e um amarelo um pouco mais vivo nas fotos dos integrantes, dando um aspecto de calor, mais uma vez condizente com a temática principal do álbum: caos, ódio ao cristianismo e destruição.
Pois bem, caros leitores, para você que teve coragem o suficiente para chegar até aqui, esta foi a resenha do recomendadíssimo The Chaos Supremacy, primeiro Full-lenght da incrível Vehexion. Tenho absoluta certeza de que – musicalmente – esse é um dos melhores lançamentos da história do Estado de Sergipe e do Underground Nacional, sem exageros. Por ser um álbum muito equilibrado, fica difícil apontar as melhores, todavia, arrisco deixar como destaques as seguintes faixas: Dead Beliefs, Denying the False Redemption, Night of Chaos e Inner Darkness. Segue abaixo os links para você conferir a banda.