20 anos de um Clássico Sergipano

Scarlet Peace – Into The Mind’s Labyrinth

resenha

19 abril, 2024

Ian LIMUWZ

Há 20 anos, a Scarlet Peace , uma das bandas mais antigas de Aracaju, Sergipe, e que ainda permanece em atividade depois de um hiato em 2009, lançava de forma totalmente independente seu primeiro disco, o álbum Into The Mind’s Labyrinth , quase 10 anos após a sua fundação. Constituída por André na guitarra, teclado e vocal, Paulo no baixo, Alexandre na bateria e vocais de apoio e Ricardo na guitarra, a Scarlet Peace ainda publicaria um videoclipe da sua faixa mais icônica, Sunset , no Youtube (link no final do artigo) anos depois. Como convidados nessa obra, a banda ainda contara com a participação magistral de Silvana Galvão nos vocais líricos, além de Júlio Fonseca, da Warlord.

Mas antes de começar com a resenha, permitam-me fazer uma breve contextualização do meu primeiro contato com esse disco. Aos 18 anos, mais ou menos, estávamos alguns amigos e eu na casa de um deles, cujo cenário já é bem sugestivo — era basicamente cerveja, som alto e gatos. E eu ali no canto, contemplando aquela coleção de CDs que iam do Underground Sergipano a Clássicos Mundiais (cuja grande maioria ainda me era desconhecida), quando me deparo com essa capa e o puxo imediatamente. “Que porra é essa?”, me pergunto mentalmente com olhos mais despertos, e o dono, que pareceu ter me ouvido o pensamento, diz: “Ah, isso aí é de Doom Metal. É uma banda daqui”. Palavras essas que eu jamais havia escutado antes, foi como descobrir um novo planeta numa nova galáxia com vida. Ele não o pôs para tocar, pois seria uma certa discrepância em relação ao que estava rolando, então ele me emprestou para poder conhecer.

Quando chego em casa e coloco para tocar… Não podia acreditar no que estava ouvindo. Aquela longa introdução de teclado com uma batida marcial logo atravessada por um proeminente canto operístico feminino… Foi muito impactante, pois era diferente de tudo o que eu já tinha escutado até então. Parecia o som de uma espécie de cerimônia fúnebre de alguma cultura distante.

E logo em seguida, de forma muito coesa com a primeira faixa, entra a segunda Sunset , ambas conectadas pelo teclado. Com sua estrutura quase progressiva, dadas as variações em seus mais de 7 minutos de duração, essa canção começa com uma belo arranjo de teclado com efeito de piano com strings , além de bateria, sucedido por um riff rápido acompanhado por bumbo duplo, quando entra um vocal tenebroso recitando uma letra triste – que, com estrofes curtas, permite sustentar a vocalização das últimas palavras dos versos por um certo tempo, dramatizando ainda mais a música – que parece refletir sobre a finitude da vida, a alternar com uns compassos mais cadenciados e uma melodia dramática de guitarra. Sucedida por outra mudança rítmica, uma cadência inquietante após mais bela uma aparição do teclado, intercalada com um dedilhado de guitarra, dando destaque ao baixo bem delineado além da marcação de bateria para mais um arranjo de guitarra solo, criando a atmosfera perfeita. E, após um breve momento de mais intensidade, a canção retoma novamente o impressionante vocal lírico feminino – alicerçado por vocais de fundo – em um dueto com o vocal principal até fechar com um solo de guitarra carregado de feeling . Uma faixa mais que completa de tão rica! Tão épica quanto.

 

Na sequência, a faixa título que possui uma estrutura parecida com a antecessora e com uma duração ainda maior – mais de 8 minutos – já começa ainda mais dramática que a anterior, com uma ótima levada de bateria e uma sobressalente camada de teclado, além do vocal feminino mais uma vez inserido com maestria, o vocal principal dá a vez para uma versão limpa e angustiante, alternando com gutural até mais uma sessão de batida marcial, com mais uma estrofe recitada em vocal limpo. Ao ter o ritmo levemente acelerado, um arranjo de piano no fundo cobre outra estrofe, e, após um dedilhado solo, a banda valoriza uma longa sessão instrumental bastante variada até o fim da música.

A 4ª faixa, intitulada So Far Away From Everything , música tão longa quanto a anterior, mas com uma abordagem um pouco mais direta na estrutura da composição, começa bem arrastada e com um arranjo bastante melancólico, além de ter um uso mais constante do teclado fazendo uma camada harmônica, também é uma ótima música. Na mesma linha segue sua sucessora, a Forgotten As The Wind , trazendo aquele clima de desolação logo de cara no seu início e valorizando o instrumental na segunda metade da música, mesclando cadências com riffs acompanhados de bumbo duplo, e com uma pegada um pouco mais Heavy Metal, mas sem abandonar a tristeza típica de Doom Metal na simplicidade de suas melodias.

E, encerrando o álbum, The Picture é a faixa que destoa um pouco do restante do disco, cuja melodia tema flerta levemente com música Folk , e com linhas vocais melódicas cantadas em coro, tanto no início quanto no decorrer e no final da música, com o vocal principal fazendo o refrão. Destaque para o baixo solo antes da banda seguir o riff na transição, muito bem colocado.

 

 

Embora seja de fato (e se autoproclame) uma banda de Doom Metal, a Scarlet Peace demonstra uma certa riqueza de influências que vão além do estilo nas suas composições, podendo-se identificar pitadas de elementos de Heavy Metal, Gótico e Progressivo.

Agora, sobre as artes do CD, a capa traz o desenho de uma face com um labirinto na região do cérebro, ilustrado bem a metáfora do título do álbum, e paradoxalmente dando uma impressão de abstração que o tema pode abranger. Detalhe para as bordas da capa, que possui um aspecto de recorte de alguma outra página. No fundo, a lista de faixas – com uma fonte de muita classe, curiosamente muito similar (senão igual) a do título do álbum Into the Unknown , do Mercyful Fate – centralizada em uma espécie de túnel de luzes e com linhas no formato de labirinto abaixo, aludindo ao conceito do álbum, e com o mesmo detalhe de recorte nas bordas.

No encarte, outro detalhe interessante: na parte interna, acima das letras em um fundo escuro, encontram-se gravuras de rostos com diferentes expressões faciais, fazendo referência aos 7 pecados capitais, abordados na letra principal. As cores utilizadas nesse plano de fundo da parte interna se assemelham a um verde musgo muito escuro, dando uma sensação de obscuridade em relação ao que está escrito.

Portanto, encerro aqui a resenha do Into The Mind’s Labyrinth , da Scarlet Peace , que com toda certeza é um clássico do Underground Sergipano e Nacional, e que eu (ao contrário do que alguns não fariam) acabei devolvendo o então CD emprestado meses depois de pegá-lo, restando apenas a versão digital para curtir, até que, inesperadamente, cerca de 7 anos depois, uma amiga – a quem sou muito grato – me presenteou com um original que ela tinha. Muito obrigado pela sua atenção, segue abaixo os links para conferir a banda: