Uma verdadeira obra prima subestimada
Mystifier – The World Is So Good That Who Made It Doesn’t Live Here
02 maio, 2024
Ian LIMUWZ
Ao longo da história do Metal Extremo em geral, temos vários discos que são considerados subestimados ou incompreendidos, e, no Underground Nacional do Brasil – onde tudo é possível – não é diferente. E isso pode acontecer devido a uma série de fatores, seja por uma mudança sonora, de formação, por uma determinada época etc. e etc. Mas, podemos dizer que alguns discos ainda obtêm uma devida valorização, mesmo que anos e anos mais tarde, em função de fatores também imensuráveis, porém, ainda há aqueles que infelizmente permanecem no ostracismo da história, muitas vezes “renegado” até pela própria banda.
Independente de quaisquer polêmicas e demais controvérsias que o cercam, o Mystifier, de Salvador – Bahia, tem uma longa e importante história na qual carrega o nome do Brasil pelo mundo há mais de 30 anos. E, ao longo dessa trajetória, numa discografia relativamente curta, a banda emplacou dois clássicos – Wicca e Göetia – dos quais a mesma vive até hoje, graças às constantes reprensagens e turnês Europeias e Americanas, onde músicas de ambos predominam em grande maioria do seu setlist ao vivo (embora, curiosamente, a faixa de abertura desse disco tem sido também a dos shows da banda nos últimos anos, permitida por uma formação agora com um segundo guitarrista).
No decorrer do desenvolvimento do Metal Extremo, apesar das várias possibilidades que motivam o fenômeno citado a pouco, ocorreram casos de discos que, ao sucederem um verdadeiro clássico de suas respectivas bandas, mas apresentando uma sonoridade um tanto diferente, nova, não tiveram um impacto tão significativo quanto, à época de seus lançamentos, como South of Heaven , Blessed Are The Sick , The Laws of Scourge (ou até mesmo o próprio Rotting , para muitos), entre outros que, mesmo sendo um tanto renomados hoje, causaram estranhamento em muitos fãs quando tiveram contato pela primeira vez. E o disco analisado hoje, o The World Is So Good That Who Made It Doesn’t Live Here , creio eu ter sofrido o mesmo fenômeno, visto que, é um álbum muito peculiar, e que acabou preterido aos antecessores desde o seu lançamento até os dias de hoje. Sim, por mais que alguns fãs da banda também gostem desse disco, e até mesmo do posterior – o Profanus –, é absolutamente inegável que a preferência maior sempre será pelos dois primeiros.
Fazendo uma breve contextualização, o The World Is So Good …, de 1996, tinha em sua formação o membro fundador da banda, Armand Beelzeebubth no baixo, Arnald J.N.D. Asmoodeus nos vocais e teclados, e Aab Lucifuge Benaia na bateria, além de Paulo Lisboa – do Headhunter D.C. – nas guitarras, ou seja, uma formação que, com diferença apenas nas guitarras e na mixagem – por Val Andrade – em relação ao disco anterior, Göetia , de 1993, pode (ou não) ter influenciado mais diretamente na direção sonora tomada do álbum, bem como no seu grandioso resultado.
Partindo para o disco, este é realmente um trabalho muito ímpar na história do Underground Nacional, a começar pelo título (gigante), The World Is So Good The Who Made It Doens’t Live Here , que em tradução livre significa “O mundo é tão bom que quem o fez não vive aqui”, o que é uma afirmação claramente filosófica de um ponto de vista mais ateísta e – o melhor de tudo – bastante irônica, se referindo ao mundo em que vivemos. E para ilustrar essa provocação, uma capa cuja pintura realmente demonstra um ambiente inóspito, frio e desprezível, com um trono – esculpidos nele anjos e leões de pedra – vazio, entregues a teias de aranha, envolto de árvores completamente secas, observados pela lua cheia e por uma coruja pousada em uma das árvores, dando ainda mais um aspecto baldio, além do tom azul espertamente escolhido para compor quase a totalidade da imagem, dando aquela fria sensação de vazio.
E finalmente, a música. O disco possui uma atmosfera soturna muito, mas muito cativante, e com uma sonoridade bem orgânica, cujo feito tem se tornado cada vez mais raro de se alcançar nos dias de hoje. O disco mescla bastante partes aceleradas com aquelas cadências que já lhe eram típicas em músicas dos discos anteriores, porém feita de forma mais inteligente, com algumas transições destacando mais um ou dois instrumentos mais individualmente, o que contribui ainda mais para a atmosfera sombria obtida aqui. Um detalhe que vale destacar está na ausência de blast beats desenfreados aos quais a banda recorreu com certa frequência no Wicca e Göetia , exercendo mais variações rítmicas e adicionando mais elementos ao longo do disco, se afastando um pouco mais da influência do lendário Sarcófago e assim obtendo uma identidade mais original.

Outros destaques valorosos estão na qualidade da gravação – até para aquela época – e principalmente nos timbres de todos os instrumentos: a bateria, com sua caixa meio grave, o baixo, que soa nitidamente em praticamente todo o disco, os vários efeitos de teclado, e, principalmente, os timbres de guitarra, que dão ao disco uma sonoridade mais próxima do Death Metal americano daquela década, que são graves, mas muito bem definidos, tanto nas bases como nos solos. Absolutamente impecáveis. E não posso deixar de citar os vocais multifacetados do Asmoodeus, que exerce uma verdadeira gama de vociferações operísticas e bestiais, se utilizando de várias técnicas, como drive, gutural, vocal limpo estilo ópera, sussurros… PQP, que trabalho foda! Embora eu não goste de ficar apontando melhores ou fazendo rankings, esse, para mim pessoalmente, é o disco com melhor trabalho vocal de todo o Metal Extremo brasileiro, e um dos melhores do mundo, sem exageros. Realmente não entendo como esse disco não obteve uma notoriedade maior, como não possui uma relevância realmente digna da qualidade incrível apresentada aqui.
Como faixa de abertura, essa obra prima começa logo de cara com a insana Give the Human Devil His Due , iniciada pelo vocal limpo (solo), porém agressivo, ao melhor estilo operístico incrementado por Asmoodeus, intercalando com a banda em poucos compassos, mas com um riff impetuoso de tão rápido, mas logo sucedidos por bases mais cadenciadas com nuances percussivas de bateria que dão mais atmosfera ao som, até darem vez para um irreverente e caótico solo de guitarra bem Old School , com nuances que lembram o virtuoso Criss Oliva, até um belo arranjo de guitarras solo em dueto como transição para a segunda metade da música, que com mais cadências, Asmoodeus preenche a música exibindo diferentes vocais numa pausa para um solo de teclado com efeito de grand piano , dando um ar de suspense [e que me lembra vagamente a introdução de violão da Hellhouse ( Kanashibari part 3), do Sabbat , do Japão], para então repetir parte da rica e variada estrutura do início até fechar a música.
Em seguida, a segunda faixa, A Chant to the Goddess of Love – Venus , com seu começo sinistro de teclado emulando um órgão, é seguido por uma levada de bateria tanto incomum quanto muito bem sacada para uma base simples, essa música segue levemente cadenciada, com Asmoodeus novamente esbanjando verdadeiros coros vocais até mais um inspiradíssimo solo de guitarra, que se destaca junto do solo de baixo na transição para as estrofes seguintes, sendo encerrada por um vocal limpo cheio de vibrato . Ótima música. Com uma estrutura parecida com a da faixa anterior, a terceira, The Death of an Immortal ( According to the Astral Light ), conta também com ótimos arranjos de teclado e baixo, bem como um adicional de clean guitars bem reverberados, além do ainda mais explorado vocal operístico nas transições, além de algumas recitações poéticas que soam ligeiramente longínquas, como toques de mestre.
Versão da capa aprimorada para o vinil, com a logo clássica

Também nos mesmos moldes da faixa citada acima, a quarta, Idolatry , tem como leves diferenciais algumas marcações mais incomuns e outro belíssimo solo de Paulo Lisboa. Já a quinta e penúltima faixa, The Barbarian Duelling with the Wise , traz alguns ritmos um pouco mais acelerados, mas mesclado com riffs variados entre cadências e sessões bumbo duplo, com destaque também para o arranjo de teclado finalizando cada verso com uma pequena frase em tom dissonante. Outro ponto destacável está nos arranjos de guitarra cheia de efeito ao fundo dos riffs, mas que são bem colocados e que dão um ar sinistro à música e uma distinção das demais. O solo também foi feito com essa abordagem mais noise , coerente com toda a música.
E para encerrar essa obra prima com chave de ouro, um épico com mais de 8 minutos intitulado Moonick ( Why Does It Never Rain on the Moon? ), talvez a faixa mais soturna do disco, com seus teclados proeminentes, bem como os vocais multifacetados mais uma vez exercendo um papel único para um disco de Black/Death Metal, bem como mais clean guitars em meio às suas cadências mágicas típicas do Mystifier , mas dessa vez mais mescladas com partes mais rápidas em sessões de bumbo duplo, enriquecendo a música, que é encerrada com um duelo de solos de guitarra e baixo(!) bem distorcido e carregados de feeling.

Como conclusão, temos aqui um disco muitíssimo equilibrado e bastante coeso, difícil de apontar destaques, pois são apenas 6 músicas incríveis cujas contam entre 5 e 6 minutos em média, com exceção da última, conforme mencionado no parágrafo anterior, e que totalizam 36:27, ou seja, é um disco para se ouvir várias vezes seguidas sem se cansar, acredite, você pode (e até deve) fazer isso. Trata-se de um disco muito criativo e com muito feeling , com bastante teclados, mas sem soar sinfônico, com muitas cadências, mas sem soar lento, e com partes rápidas, mas sem soar descoordenado ou repetitivo, além da ótima execução em todas as atribuições por parte de cada integrante.
Outro aspecto muito interessante do disco está nas letras, que além de soarem reflexivas e profundas, possuem uma beleza um tanto poética no decorrer dos versos, com estrofes assimétricas e temas centrados basicamente no ateísmo e na negatividade da religião e da humanidade. Give the Human Devil His Due [tradução: Dê ao Diabo Humano o que lhe é devido] por exemplo, me parece tratar de repúdio ao comportamento humano com vingança, conforme versos como “Olho por olho; Dente por dente; Você deve retribuir o mal com o mal; Cinzas às Cinzas, Pó ao pó…”, e que, surpreendentemente também contempla uma visão do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, cujo verso alusivo é autoexplicativo: “O homem nasce como um animal puro e sábio; Mas a sociedade o cega e o contamina”.
Já A Chant to the Goddess of Love – Venus , [tradução: Um Cântico à Deusa do Amor – Vênus] também é autoexplicativa, sendo Vênus a deusa do amor e da sabedoria, equivalente romana a Afrodite, da mitologia grega, mas também com uma dose de crítica à humanidade, em versos como “Os estúpidos tentam te profanar; Eles estão presos na teia da ignorância”. Em outro verso, já com um tom mais melancólico, ele suplica: “Vire seu rosto para a terra, lance-nos um olhar misericordioso; Ilumine essas pobres crianças perdidas neste vale de miséria”. Simples, mas bonito.
A paradoxal The Death of an Immortal ( According to the Astral Light ) [tradução: A Morte de um Imortal (Segundo a Luz Astral)], parece tratar da mortalidade terrena devido aos pecados, bem como ateísmo, gritante em “Subir as escadas para o céu com honra para conhecer seu deus imaginário”. Idolatry [tradução: Idolatria] é mais um título bastante sugestivo, pois, além de criticar negativamente a idolatria a imagens divinas, contempla a filosofia do Caminho da Mão Esquerda com “Agora, eu acho, sou meu próprio deus; Ninguém me diz o que devo pensar e fazer…”, bem como a indecisão referente a crenças, como ele se questiona em seguida: “Serei capaz de andar com minhas próprias pernas? […] Se eles me punirem… Estou com medo […]”. E, encerrando a letra, o último verso é intrigante: “Como posso ajudá-lo, se você não sabe o que quer?”.
Outro título simples, porém, belo, The Barbarian Duelling with the Wise [tradução: O duelo bárbaro com os sábios], critica a religião: “Em nome de Deus, retrocede a ti, criatura nociva; Eu sou o câncer crescendo em suas entranhas; Respeite as leis sagradas do ser supremo; Supremo em seu reino de medo e mentira”. Já a última faixa, Moonick ( Why Does It Never Rain on the Moon? ) [tradução: Moonick (Por que nunca chove na lua?)], me parece uma elaborada metáfora para a morte, falando em sonhos e pesadelos e feitiços, e com um tom de muita melancolia ao falar também de solidão: “Cada porta está se abrindo; O feitiço se tornou realidade […]; A solidão me despedaçou […]; Agora você fecha os olhos. Por que?; Porque eu vou fazer chover na lua”.
Lembrando que essas são apenas interpretações pessoais e não uma explicação concreta, visto que, letras, poemas etc. são sempre um tanto abstratos e com uma visão muito pessoal de quem os escreve, o que os tornam muito difíceis de se encontrar um significado exato para cada um deles sem qualquer comentário em entrevistas ou coisas do tipo. Várias pessoas podem lê-las e cada uma delas interpretar de uma maneira diferente, e ainda assim nenhuma delas ser compatível com a visão e intenção do autor (e na época).
Portanto, The World Is So Good That Who Made It Doesn’t Live Here é muito mais que só o terceiro disco do Mystifier , é um disco completo, pois marca um salto evolutivo em termos musicais com composições magníficas, uma ótima produção musical, uma atmosfera soturna única, bem como com letras amadurecidas e bem escritas na beleza da sua simplicidade. Então, caso não o conheça muito bem (ou nada), eu desafio você, leitor, a se aprofundar nessa obra prima e escutar com as referências aqui dadas, para quem sabe conseguir contemplar a grandiosidade desse disco tão incompreendido, e que parece ter passado um tanto despercebido do grande público, sendo eles fãs da banda ou não. Segue abaixo os links onde você pode escutá-lo, e o da sua rede social: