A EFÊMERA SINFONIA DA DOR
IMPERIOUS SYMPHONIC & NOISY – LABYRINTHUS AD TERTIO OCULI
30 janeiro, 2025
Ian LIMUWZ
Pouco mais de 10 anos após o seu lançamento, tendo sido em cassete e CD pelo selo ucraniano Depressive Illusions, e em CD pela Without God Distro, daqui do Brasil (ambos em 2014), hoje venho falar da demo (porém registrada como Full-Lenght no Metal Archives) Labyrinthus ad Tertio Oculi, da banda sergipana de Black Metal Imperious Symphonic & Noisy. Composta por um duo de longa data, sendo Daemonium Mysteriis (Desdenha do Norte, A.T.O) nos vocais e guitarra, e Aeternus Actus Ater Corpus (Effigies Mundus, Terror, Desdenha do Norte) na bateria e baixo, a banda traz um Black Metal cru, denso e sombrio, que veremos a seguir, além de letras em português e de temática mística e esotérica. O material é relativamente curto, contendo 5 músicas que somam pouco mais de 14 minutos de duração, mas num total de 7 faixas, pois as duas últimas são versões de ensaio, atingindo um total de 21 minutos.
Com uma letra bem curta, o material anuncia a prospecção da banda com “Concebido das Chamas”, um verdadeiro petardo fulminante e bruto, carregado de blast beats e bumbo duplo de forma bem alternada, além de uma base rítmica beirando o Thrash Metal, mas sem necessariamente soar unicamente como tal. Em seguida, uma das faixas mais carregadas de angústia, seu título fala por si só: “A Maldição Chamada Vida”, faixa que começa com uma melodia realmente ultrajante e doentia, essa música consegue exalar um desprezo de forma descomunal, tanto no seu início intenso e ríspido como na sua progressão, com dedilhado e riffs desprezíveis que ditam cadências maliciosas, além de ótimos arranjos de bateria, e seu vocal pavoroso e desumano. Sua estrutura é precisa e sem dúvidas temos aqui uma das melhores músicas (senão a melhor), e a mais expressiva.

Na sequência, temos “Imperiosa Sinfonia Raivosa”, com um sample aterrador de introdução ilustrando bem o que está por vir. Com bastante agressividade, apenas seu início remete o ouvinte à primeira música, pois logo se dissolve numa transição dramática, com um dedilhado seguido de uma cadência austera que lembra a faixa anterior, cuja base é significativamente repetida, como um transe, tomada por vocais berrantes de desespero, típicos do que se poderia imaginar de um espírito atormentado, seja lá onde.
“Obscuro Plano” dá sequência ao material, novamente tendo um sample atmosférico no início, até que trovões chamam uma música mais curta e que mescla um Black Metal tradicional dos anos noventa com uma raiz mais oitentista, mas sem perder a fúria já expressa anteriormente. Para os familiarizados, eu diria que são doses aparentes do que poderíamos ouvir entre Gorgoroth e Bathory. E, para fechar, “O Dragão Sobre os Céus” traz mais uma mescla sagaz de intensidade com um groove pernicioso, e que numa transição dramática e coerente, a melodia se segue com variações rítmicas na bateria de forma muito bem sacada, resultando numa ótima estrutura apesar da curta duração. Vale destacar também a inserção de vocais doentios de fundo durante a última estrofe, causando um clima um tanto perturbador e horripilante.
Partindo para a arte, a capa mesmo relativamente simples, é daquelas que diz muito com pouco, com um labirinto cercado por um oroboros e um olho no seu núcleo, figura centralizada entre o logo e o título dentro de uma moldura, tudo no clássico e perspicaz preto e branco. Tal ilustração provavelmente traz uma ideia de jornada para a iluminação, a elevação da consciência à gnose que seria representada pelo centro, o labirinto representando a dificuldade de atingir tal propósito com a grande possibilidade de perdição pelo árduo caminho espiritual. Dentro do encarte, contém as fotos dos integrantes, mais uma do antigo fundador que cunhou o nome, como uma homenagem póstuma e as letras das músicas em itálico.

Voltando à música, “Labyrinthus ad Tertio Oculi” é uma pequena obra coesa com boas incrementações, e que sua atmosfera sinistra é muito capaz de cativar o ouvinte amante de um Black Metal old school em meio a muita raiva e angústia quase que simultaneamente. Sua estética sonora soa um tanto lo-fi, certamente muito em função das limitações técnicas do contexto em que o álbum foi gravado, mas que ainda assim, com atenção, é bem possível assimilar a música e captar toda a prospecção e essência contida no álbum. E, conforme já anunciado aqui no Mira, para quem apreciar esse mini álbum, pode interessar a regravação desse material prevista para 2025, que deve dar a qualidade sonora e estética devida a essas composições. Devo dizer que, em determinada realidade adversa, são poucas as bandas que se propõem a fazer Black Metal propriamente dito que conseguem transmitir uma sensação pesada, com sinceridade, e arquitetar isso de forma consciente, mesmo em meio às limitações, adversidades, dificuldades típicas das enfrentadas por bandas do Extremo Underground. “Labyrinthus ad Tertio Oculi” é uma verdadeira sinfonia da dor, efêmera e miserável, e que ao contrário de muitos, tem realmente algo a dizer.
Segue abaixo os links para conferir a versão resenhada do álbum e também o retorno da banda às atividades no show do evento “Sínodo à Libitina”, realizado em São Paulo, em novembro de 2024, pela Brasilis Produções: