Em 2021, o Doom é realmente levado a um nível além

Churchburn – Genocidal Rite

resenha

02 abril, 2024

Ian LIMUWZ

Muitas bandas underground de metal extremo hoje, sejam elas lo-fi ou hi-fi , utilizam fórmulas semiprontas para produção musical em home studio e tendem a se apegar a elas, repetindo-as em lançamentos consecutivos. Não Churchburn . A banda, em contraste com aquela tendência preguiçosa de muitos dos “produtores” underground, mostra uma evidente evolução constante, e seu ápice foi alcançado aqui em Genocidal Rite.

Tudo aqui soa tão coeso e encorpado, com instrumentos e vocais muito bem conectados e sem exageros de volumes ou ganhos em nenhum deles a ponto de se destacar na masterização, não, isso definitivamente não acontece aqui. Um equilíbrio perfeito, desde os timbres gordos de guitarra, o baixo levemente distorcido, porém, presente e bem audível, bateria grave e pesada, além de vocais um tanto ásperos, gritantes, mas sem excessos a ponto de descaracterizar demais as falas. Tudo isso forma uma massa de texturas muito pesada, densa e envolvente, uma atmosfera sombria que é capaz de transmitir desolação e raiva ao mesmo tempo que os escritos. Uma verdadeira lição de execução e produção num trabalho tão humilde.

Vale ressaltar um ponto um tanto curioso que contribuiu para esse resultado: a voz de Dave Suzuki . Claramente deteriorado, provavelmente pelo avanço da idade, mas que, nesse disco, foi um mal que virou bem (ou pior, haha), tipo “quanto pior, melhor”. Já as falhas na técnica vocal gutural outrora assoladas em Vital Remains (ao vivo) e em The Awating Coffins , já apresentavam indícios em None Shall Live… the Hymns of Misery . Aqui, em Genocidal Rite , acabaram dando lugar a gritos agonizantes, que se encaixavam perfeitamente nas linhas vocais sobre um som caótico, denso e obscuro, expressando muita dor, sofrimento e raiva.

Um disco homogêneo e equilibrado, nivelado quase totalmente no topo, com exceção de Sin of Angels , que é uma espécie de homenagem ao Death Metal Old School , mas me soa completamente fora de contexto, sem aspirar ao espírito emanado pelo conjunto do disco até então. E, apesar desta inserção inesperada, a letra é enunciada na voz de John McEntee , do Incantation , que, apesar de ser uma das suas bandas de referência, não se aproxima da genialidade expressa em Churchburn . Tanto que Sin of Angels é uma faixa simples, uma fuga da “regra”, praticamente uma falsa assinatura do Incantation , com uma faixa intrusiva no álbum, sem dúvida, desnecessária para a obra. Outra curiosidade está no título dessa faixa, que leva o nome de uma antiga banda do baterista do Churchburn , Ray McCaffrey , e na qual Dave Suzuki também já contribuiu para com eles tocando guitarra ao vivo por volta de 2006

 

De qualquer forma, a faixa título começa lenta e arrastada, com seus vocais imediatos e desprezíveis, que continuam a rastejar numa lama sonora fria, e que gradualmente emerge uma tensão raivosa à medida em que a faixa avança para ritmos mais acelerados, com uma pausa dramática para um lancinante solo de Dave Suzuki . Ótima faixa. Em seguida, Swallowed by Dust , anunciada por um riff isolado, dissonante e áspero, quase incômodo, logo cortado por riffs “feios” e ritmos de bateria bem inusitados, acompanhados de vocais ardentes até chegar ao solo incrível, mais uma vez cheio de feeling , o mais no topo da música, com uma melodia neoclássica cativante digna de Vital Remains , pontuada por belos vibratos que lembram Yngwie Malmsteen em seus tempos de Alcatrazz , e com as últimas frases dobradas cirurgicamente alguns tons mais acima, fechando a passagem com chave de ouro. Porém, a surpreendente música continua com uma segunda parte distinta da primeira, o que pode causar certa estranheza ao ouvinte.

Ao mesmo tempo que faixas que mesclam cadências e ritmos levemente acelerados, Scarred é implacável e rico em variações. Sua introdução marchante anuncia progressões rítmicas a partir de uma velocidade que flerta com o Old School Death Metal , passando por cadências e sessões de bumbo típicas de Churchburn . Até a primeira metade, a música é finalizada por outro arranjo de violão que leva o ouvinte de volta a Vital Remains , até outra pausa dramática, para a entrada de um violão também coberto por um noise de guitarra ambiente, até dar lugar ao mais intenso solo emocionante de Dave. Aqui, ele descarrega toda a sua angústia e lamentação que mais nenhuma palavra deveria ser capaz de expressar, para encerrar a música com o último verso com seus vocais desesperados, como se implorasse por misericórdia, ou para acabar com todo esse sofrimento e dor.

Em meio a esse caos imundo e cruel, temos um contraste incrivelmente surpreendente e comovente. A instrumental Unmendable Absence , um dos pontos principais do álbum, esfria o clima de forma inovadora, sendo uma camada harmônica simples, acompanhada por um noise de guitarra ao fundo, e belos arranjos de violão e BANJO, que, embora seja um instrumento absurdamente agudo (leia-se “feliz”), é aqui composto de forma triste e melancólica, como o título sugere. Vale destacar esta faixa como especial, pois é claramente uma homenagem ao falecido pai de Dave Suzuki , com todo aquele sentimento de luto, que é real, e não um mero capricho temático escolhido pela fórmula padrão do Doom Metal . Realmente cativante.

Portanto, apesar do pequeno deslize no final do álbum, tanto para as faixas cantadas por Dave Suzuki quanto a faixa instrumental, vê-se aqui muita competência de uma banda mesclada entre os padrões de bateria precisamente fúnebres de Ray McCaffrey, e a massa pantanosa de guitarra e baixo entregues pelo próprio Dave Suzuki Timmy St, Derek Moniz , respectivamente. Uma verdadeira obra-prima de 2021, tanto do Doom Metal quanto do metal extremo em geral, de uma das principais bandas do Underground na atualidade.

Portanto, aqui não temos uma nem duas músicas destaque, pois, com exceção da faixa de introdução e a de encerramento, Sin of Angels, TODAS as músicas são igualmente incríveis e geniais. Todavia, elenquemos mesmo assim: a faixa título, Swallowed by Dust Unmendable Absence Scarred. Ouça o Genocidal Rite nas seguintes plataformas e conheça-os mais na suas redes abaixo: