A originalidade da sua era clássica

Bethlehem e a sua clássica tríade da loucura abstrata

resenha

20 setembro, 2024

Ian LIMUWZ

O que normalmente se espera de uma pessoa mentalmente perturbada? As respostas para essa pergunta podem ser diversas, desde comportamentos inadequados a atrocidades indescritíveis, mas, obviamente, não é bem o caso do baixista e mentor do Bethlehem, Jürgen Bartsch, embora o próprio se refira a si mesmo de tal forma, para explicar o seu suposto único talento, que é escrever letras bastante abstratas que acusam uma espécie de insanidade moderada, mas que jamais seriam escritas por uma pessoa tida como normal. Sem contar que, a desconhecimento de muitos, o pai do seu parceiro de banda, Klaus Matton, cometeu suicídio, o que certamente contribuiu como influência para os escritos de Bartsch, ao conviver imerso nesse tipo de atmosfera.

Jürgen Bartsch, nos primórdios do Bethlehem.

Dito isso, sabemos que há muitos artistas geniais – ou mesmo “limitados”, mas pelo menos tão únicos quanto – que também são um tanto excêntricos, cujas atitudes muitas vezes chegam a beirar o irracional, o que parece ser um ponto de interseção entre músicos e artistas tão peculiares em seus respectivos estilos e gêneros. Nomes como Buckethead, Sid Barret, Per “Dead” Ohlin, Euronymous, Yngwie Malmsteen, entre outros são apenas alguns exemplos de como a originalidade pode carregar um certo grau de anormalidade, seja um temperamento absurdamente forte, um alter ego distinto, uma fobia ou o que quer que seja.

Todavia, nenhum dos nomes citados acima chegou aonde chegou trabalhando complemente sozinho, mas com certeza contribuíram significativamente para a música em seus respectivos (sub)gêneros, com parcerias certeiras típicas das que só se vê uma vez na vida, e que raramente duram tanto tempo, porém, o suficiente para deixarem marcas inabaláveis. E, claro que o Bethlehem – com a sua clássica tríade composta pelos primeiros discos, sendo eles o Dark Metal (1994), Dictius Te Necare (1996) e S.U.I.Z.I.D. (1998), sendo a era tida praticamente por unanimidade como clássica absoluta – se consolidou como um nome cult no extremo underground mundial, muito em função da parceria artística dos alemães Jürgen Bartsch e Klaus Matton (guitarrista), que, em conjunto com outros músicos em cada álbum, nos deram o Bethlehem do qual falamos hoje.

Em contrapartida ao Rock e Heavy Metal mais mainstream, que nos anos 90 sofriam financeiramente com o surgimento de novas tendências que roubariam a cena focada nas cifras, paralelamente surgiam novos estilos de metal extremo um tanto nichados, quando tivemos a consolidação do Death Metal em suas várias formas, bem como a famosa “segunda onda do Black Metal” e assim por diante. E nessa época, surgia o Bethlehem, em meio a essa explosão de bandas e estilos extremos, trilhando um caminho que passava por algumas dessas escolas, quase que simultaneamente, começando pelo então emergente e quase febril Death/Doom Metal, mas logo depois incorporando características do Black Metal.

Capa do Dark Metal, álbum de estreia da banda.

Tanto que, eles ousaram intitular seu álbum de estreia “Dark Metal” (1994), cunhando um termo que, embora não tenha vingado como subgênero “oficial”, acabou servindo de alcunha para todo um nicho musical que, curiosamente não se assemelha tanto ao som do próprio Bethlehem, o que nos leva ao ponto a seguir: a peculiaridade e originalidade do Bethlehem – nas suas mais variadas formas e aspectos, a começar pelo nome, que, olhando por cima, sugeriria nada mais que uma banda de Death Metal abordando um de seus temas mais clichês, o de anti religião, mas que, ao ser perguntado sobre a escolha, o próprio fundador não sabe ou não consegue explicar, o que deduz-se só estando lá para entender (e olhe lá).

Com a sua estética Death/Doom, sendo essa um som arrastado e de clima melancólico típicos de Doom Metal somados ao peso e à rispidez do Death Metal, além de músicas relativamente longas e os vocais consideravelmente estridentes de Andreas Classen e a bateria seca de Chris Steinhoff, Dark Metal com o passar dos anos cativou uma verdadeira legião de fãs de metal extremo com a sua abordagem inovadora até a dissolução da então formação para dar origem àquela que lhe rendeu o status de lendária, a do álbum sucessor, Dictius Te Necare – Latim para “Você deve/deve se matar”, em 1996. Aqui, tal álbum nos leva a várias peculiaridades que só se vê no Bethlehem, a começar pelo vocalista Rainer Landfermann, que, mesmo não sendo um vocalista recorrente em outros trabalhos (até hoje, inclusive), conseguiu, com sua abordagem completamente inovadora e bastante inusitada, contribuir para Dictius Te Necare ser o maior clássico da banda, com um verdadeiro aspecto de surtado e esquizofrênico, onde Landfermann protagonizava uma das performances mais chocantes e insanas, com berros desesperados e completamente descontrolados, sussurros horripilantes e dignos de uma pessoa realmente louca, capaz de cometer suicídio (e/ou quem sabe um homicídio antes) a qualquer momento. Somado a tudo isso, Landfermann ainda emanou lamentos chorosos em passagens mais melancólicas, frente a guitarras clean e baixo isolados, ilustrando ainda mais a temática depressiva e transtornada da banda desenvolvida por Jürgen Bartsch.

Capa do lendário Dictius Te Necare, segundo álbum do Bethlehem.

Outro detalhe marcante em Dictius Te Necare são as letras que – antes escritas em inglês – passavam a ser escritas no seu idioma nativo, o alemão, dando uma identidade única à banda (inclusive, eles regravaram a faixa “Veiled Irreligion”  do Dark Metal no Dictius Te Necare, que, traduzida, ficou “Verschleierte Irreligiosität”, com novos arranjos vocais pelo próprio Rainer Landfermann), o que até então era tão inovador quanto exótico, que, com sua fonética dura, quadrada, brusca, o álbum atingia mais uma marca própria inconfundível. O título, como poucos ainda na época, abordava direta e explicitamente o tema suicídio, tanto que o álbum foi convenientemente “dedicado a todas as vítimas de suicídio”.

Rainer Landfermann, vocalista do Dictius Te Necare.

Além disso, Dictius Te Necare foi o primeiro disco do Bethlehem a contar com um videoclipe de apoio, para a faixa “Tagebuch einer Totgeburt”, que contém uma cena de abertura simplesmente tão triste quanto icônica: Uma mulher pulando para a morte em uma ribanceira. Realmente pesado, ainda mais para aquela época. Por motivos óbvios, vale mencionar que Dictius Te Necare foi censurado em alguns países, rendendo inclusive acusações e processo por apologia ao satanismo (tinha que ser) à banda, provavelmente pelo fato de o guitarrista Klaus Matton ter dado uma fita da banda a um garoto de 14 anos que supostamente assumiu um comportamento no mínimo “estranho” após esse fato.

Outra curiosidade dessa formação do Bethlehem – justo a mais memorável – é o fato de Landfermann jamais ter se apresentado ao vivo com a banda, tendo Jürgen Bartsch afirmado recentemente em uma entrevista que Landfermann chegou a ensaiar somente duas vezes com o Bethlehem, sendo que, somente três músicas depois, pasmem, ele não tinha mais condições fazê-lo! Sim, ele disse isso.

Certamente esse além de outros motivos foram determinantes para Landfermann deixar a banda logo após a gravação do álbum, e assim, o trabalho posterior, o “Sardonischer Untergang im Zeichen irreligiöser Darbietung” (1998), ou, como também é chamado pelas iniciais, que, não por acaso, formam a palavra “S.U.I.Z.I.D.” (abreviatura para “suicídio” em alemão) simplificando esse título que, convenhamos, é absolutamente impronunciável, vindo novamente com um vocalista diferente, tendo sido o questionado (injustamente, a meu ver), Marco Kehren, além de uma segunda vocalista (pelo menos o álbum), Cathrin Campen, algo então inédito na banda e provando mais uma vez sua veia inovadora e ousada. Aqui, Bethlehem dava mais um passo além na experimentação, com trechos de músicas mais hipnóticos, explorando elementos de música eletrônica, colocando efeitos nos vocais e fazendo o uso de sintetizadores, causando uma sensação de viagem introspectiva de um delírio, ou confrontando memórias reprimidas no inconsciente, quase como um transe sonoro que envolve os menos radicais. Além dessas novas abordagens – que não diminuíram em nada a essência do Bethlehem –, S.U.I.Z.I.D. traz timbres ainda mais crus e com mais ambiência, onde o som se distancia um pouco mais daquela estética Death/Doom dos álbuns anteriores, dando uma cara mais Black Metal, mas com toques do que viria a ser usado no chamado “metal industrial”.

Sardonischer Untergang im Zeichen irreligiöser Darbietung (1998).

Quanto à performance do vocalista principal, Marco Kehren, a julgar pelo contexto histórico, ele certamente sofreu com a (desnecessária) comparação com o (verdade seja dita) trabalho monumental de Rainer Landferman, embora ela tenha mantido as características base dos vocais do Bethlehem, com gritos repentinos de surto e desespero e gemidos lamentosos de dor e derrota. Curiosamente, uma versão regravada desse álbum chamada  “Sacrificial Offering to the Kingdom of Heaven in a Cracked Dog’s Ear”, com vocais feitos por Niklas Kvarforth, do Shining, foi lançada em 2009, provavelmente numa tentativa (pífia, por sinal) de se desvincular da formação com Marco Kehren, a contragosto de muitos fãs. Com isso, eu afirmo: não se mexe com clássicos! Ponto final.

Agora, um ponto em comum na tríade da loucura do Bethlehem está nas capas: todas no simples e clássico preto e branco, com silhuetas de partes de esqueletos, sendo aparentemente humano no Dark Metal e de cavalo (tão incompreensíveis quanto bizarras) no Dictius Te Necare e S.U.I.Z.I.D., representando a abstração do conceito lírico escrito por Jürgen Bartsch.  Além disso, vale mencionar que é a única sequência de 3 discos que são exclusivamente Metal – e com o guitarrista dessas formações clássicas, Klaus Matton –, visto que, na trilogia seguinte, a banda embarcou numa onda totalmente distinta, no ramo de música eletrônica, até o retorno triunfal ao Black Metal no ótimo álbum homônimo de 2016, com a mais do que competente e escolha óbvia, Onielar, do Darkened Nocturn Slaughtercult, devolvendo aquele espírito insano e horripilante do Black Metal pelo qual o Bethlehem ficou conhecido.

O mentor do Bethlehem em ação ao vivo recentemente.

Assim sendo, ao trilhar essa jornada nos seus primórdios, e apesar do devaneio eletrônico nos três álbuns pós S.U.I.Z.I.D., Bethlehem ficou conhecido como um dos pioneiros do famoso subgênero do Black Metal, o DSBM – Depressive Suicidal Black Metal, embora sonoramente o estilo tenha sido desenvolvido mais baseado no em bandas como Burzum e Darkthrone, com uma estética completamente crua, lo-fi, atmosférica e ainda mais triste e melancólica, como contraponto a momentos de mais agressividade encontrados na tríade da loucura abstrata do Bethlehem, além de outros aspectos estéticos já mencionados no início do texto. Portanto, nos resta apenas voltar no tempo e adentrar nesse covil de insanidade e sentir a paranoia intrigante dessa era, e despertar reações que só o Bethlehem é capaz de te causar.